[Via Campo Grande News]
Em frente à Escola Estadual Joaquim Murtinho, em plena terça-feira de Carnaval, “Chita”, como é chamado, exibe cabelo afro trançado e segura um rádio de comunicação. Passa a impressão de ser segurança de uma festa, mas guarda, na verdade, o interior da escola, onde estão alojadas em média 350 pessoas – a maioria jovens – que trocaram “a festa da carne” pelo culto do espírito.
Edwiliney Chita, 39, é carteiro, líder da Igreja Batista Nacional de Campo Grande e também um dos organizadores do Conjuban (Congresso da Juventude Batista Nacional), um retiro promovido pela Igreja Batista Nacional que acontece a cada dois anos, sempre durante o Carnaval. Esse ano, o destino escolhido foi Campo Grande e o “templo”, a Escola Joaquim Murtinho.
Por ali, desde crianças a idosos unem-se em prol da juventude Batista e ignoram o que ocorre bem perto da escola, a tradicional festa de rua do Carnaval campo-grandense. Ainda assim, nem só de cultos são feitos os dias do retiro.
Alojados na escola desde sábado (2), o grupo desafia a imagem tradicional da religião, com danças como o “hip-hop” e “street dance” e até estampou, em faixas, letras tradicionais da cultura grafiteira. Ao invés das frases de protesto, no entanto, a faixa exibe os seguintes dizeres: “Jesus me amou primeiro”.
Campeonatos de várias modalidades esportivas também fizeram parte do evento que chega ao fim nesta terça-feira (5). Durante a manhã do último dia do retiro os participantes reuniram-se na quadra da escola, assistiram a um show e ouviram as palavras dos pastores.
Chita toma bastante cuidado ao falar do Carnaval, afirma não condenar, “por não ser digno de condenar”, mas finaliza: “não é salutar”. “Carnaval é tido como uma festa da carne. A gente tira esse período para fazer uma festa do espírito. Eu não condeno porque não sou digno de condenar ninguém. Para mim não é salutar, mas não condeno ninguém”, diz.
Para ele, a igreja, para atrair mais jovens, tem que buscar “todas as formas de adorar a Deus”. “Não importa se é uma dança, temos que fazer pela glória de Deus. O principal é o entendimento das palavras de Deus”.
O evento, que reúne 12 igrejas e fieis de 13 cidades de Mato Grosso do Sul é planejado com dois anos de antecedência. “Sonhamos com isso e corremos atrás. O que fazemos em nome de Deus temos que fazer nosso melhor”. O líder da igreja ainda diz “que o estado é laico”, ao comentar a autorização da SED (Secretaria Estadual de Educação) para que o evento fosse realizado em uma escola estadual.
“O problema é querer tirar o direito do outro. Dentro da minha fé posso achar errado, mas não posso julgar”, afirma, sobre o papel do estado, mas declarou ser a favor do ensino religioso nas escolas, assunto em voga no atual momento político.
“Ganhar almas para o senhor” – A estudante de fisioterapia Vitória Minhos, 19, se aproximou da igreja há um ano. “Tinha amigos que já eram da igreja, conheci Jesus e me apaixonei”, conta ela, que não era religiosa. Sobre o Carnaval, a jovem afirma não frequentar festas e acha a tradição carnavalesca “ruim”. “Eu acho que é uma festa muito da carne, acho ruim”, diz.
“A igreja é tudo. É incrível”, diz, afirmar ter dificuldades de encontrar palavras para descrever a relação com a religião. Vitória acredita que o papel dos jovens, na igreja, “é ganhar almas para o senhor”.
“Não há limites” – Natural do Chile e casado com uma brasileira, o missionário da Igreja Batista Nacional chilena já visitou o Brasil várias vezes, mas é a primeira vez que frequenta o retiro de jovens. “O jovem começa a se integrar melhor, a ter mais claridade. É um encontro com Jesus, que o libertará”, explica.
Para ele, o Carnaval deixa os jovens “à mercê”. “Eu sei que o Carnaval é cultural, mas sabemos que há uma situação espiritual, deixa muito à mercê, as pessoas fazem o que querem”, comenta, citando uso de drogas, prostituição e até estupros durante a festa. “Não há limites. O único limite é a polícia, mas é segurança, não há limites”, complementa.
O chileno opina que a igreja deve “ajudar no crescimento ministerial” dos jovens. “Que o jovem comece a desenvolver o chamado pastoral”.
Lidiane Silva, 21, não estuda e não trabalha, mas a ocupação, na igreja, para ela “é a alegria verdadeira”. Lidiane, que exibe tatuagens no braço, começou a frequentar a igreja há dois meses e na primeira vez que visitou, foi contrariada. “A primeira vez não queria ir, fui pela minha mãe, mas achei a igreja maravilhosa. Senti a presença de Deus lá, nunca mais foi a mesma coisa”, relata.
Ela já frequentou o Carnaval, foi à festa de rua no ano passado, mas afirma que os hábitos mudaram “depois que conheceu o amor de Deus”. “O Carnaval é uma alegria passageira”, opina.
Amor de Deus sim, religião não – Julia Yamada veio de Miranda, a 201 km de Capital, para participar do retiro. Ela tem apenas 15 anos, mas já demonstra opinião forte sobre o papel da igreja, da juventude e afirma que a igreja deve “pregar o amor de Deus” e não a religião. Outra curiosidade da adolescente é que foi à igreja Batista pela primeira vez com “10 ou 11 anos” sozinha. Deixou de lado a religião dos pais, que são espíritas e ali se encontrou.
“Sentia falta de um complemento. Eles [pais] aceitaram porque acharam que já estava na hora de eu decidir. Eu acredito que a igreja tem que pregar o amor de Deus”, afirma, apontando que “Deus a ajudou a superar as coisas mundanas”.
“Eu acho que cada um tem que escolher o que quer, mas não é muito bom [Carnaval] porque talvez façam coisas que não são muito boas e tem várias consequências depois”, discorre, sobre o Carnaval.
A forma correta de atrair os jovens para a igreja, diz, é “pregar o amor de Deus, não a religião”. Outra questão, afirma, é que a igreja não deve fugir de assuntos relacionados aos jovens, “sexo, namoro, a realidade dos jovens”.
“Prazeres pecaminosos” – O secretário administrativo Elizeu dos Santos, 22, veio de Sete Quedas, a 471 km de Campo Grande com a esposa e quatro jovens meninas sob os cuidados dos dois. Elizeu descreve a si mesmo como religioso desde criança, levado à igreja pelos pais. A Batista Nacional ele frequenta há 3 anos.
Afirma ter se aproximado da igreja em razão do “fogo do espírito santo e o cuidado que ele tem com as pessoas”. “Depois da Batista aprendi que não devemos ser religiosos, mas simplesmente cristãos”.
Elizeu acredita que o Carnaval representa um universo de pecados. “Ele praticamente leva nosso jovens e adultos a se curvarem diante de um mundo de libertinagem, que acabam cultuando prazeres pecaminosos deste mundo. Acabam se esquecendo de Deus”.
O jovem sintetiza que a igreja, para reunir mais jovens, deve “resgatá-los” e “pregar o evangelho simples de Jesus”.