Relatório da OMS aponta que a incidência da doença subiu entre 1990 e 2019
O número de casos de câncer em pessoas com menos de 50 anos cresceu 79,1% nas últimas três décadas. Isso é o que aponta o relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgado em julho deste ano.
Para a pesquisa, foram coletados dados de 1990 a 2019. Entre os mais afetados, os idosos continuam concentrando a maior parte, com 53% dos 20,6 milhões de casos registrados mundialmente em 2024 ocorrendo em pessoas com mais de 65 anos.
Segundo o Prof. Dr. Ramon Andrade de Mello, oncologista do Centro Médico Paulista High Clinic Brazil e vice-presidente da Sociedade Brasileira de Cancerologia, existe uma tendência de crescimento entre adultos mais jovens que não pode ser ignorada.
As causas desse aumento ainda não são completamente conhecidas e provavelmente variam de acordo com o tipo de tumor. De acordo com a OMS, o aumento nos diagnósticos de cânceres como mama e tireoide pode estar relacionada ao maior rastreio e sobrediagnóstico. “Quanto mais uma população é examinada, maior é a possibilidade de encontrarmos tumores que permaneceriam desconhecidos, sem causar sintomas ou representar riscos para a vida do paciente. Isso pode elevar o número de diagnósticos sem representar, necessariamente, um aumento equivalente das formas mais agressivas da doença”, diz o Dr. Ramon, ressaltando que é importante não confundir sobrediagnóstico com resultado falso-positivo.
Mas a ampliação dos exames não explica tudo. O aumento também ocorre em populações que não são submetidas rotineiramente ao rastreamento, indicando que outros fatores podem estar envolvidos, como obesidade, sedentarismo e alimentação desequilibrada.
A identificação da doença entre adultos jovens também representa um desafio, visto que muitos tumores podem não provocar sintomas nas fases iniciais, enquanto outros causam manifestações discretas ou inespecíficas. “E grande parte das pessoas com menos de 50 anos não está incluída nas faixas etárias recomendadas para rastreamento. Logo, parte dos tumores só será investigada depois do aparecimento de alguma manifestação ou será descoberta acidentalmente. O problema é que a ausência de sintomas não exclui o câncer e, quando eles aparecem, podem ser confundidos com condições benignas mais comuns nessa idade”, ressalta o especialista.
O médico ainda alerta que essa tendência não significa que todas as pessoas devam começar a realizar exames mais cedo. O relatório da OMS defende o fortalecimento dos registros de câncer para identificar quais tumores estão aumentando, em quais grupos populacionais e quais os fatores envolvidos, o que pode orientar futuras mudanças nas recomendações de rastreamento e nas estratégias de prevenção.
De acordo com ele, o rastreamento precisa ser baseado em evidências de que os benefícios superam os riscos. “Submeter toda a população jovem a exames pode aumentar o número de resultados falso-positivos, gerar ansiedade e levar a biópsias, procedimentos e tratamentos desnecessários. O objetivo não é fazer com que os jovens vivam com medo do câncer ou realizem uma série de exames sem indicação. O mais importante é encontrar um equilíbrio”, conclui.
Via CNN Brasil