Estudo revela proteína ligada ao avanço do câncer de pâncreas pelos nervos
11:57 26/01/2026

Pesquisa brasileira mostra que células pancreáticas estreladas, ao produzir periostina, remodelam o tecido e facilitam a infiltração tumoral, mecanismo-chave para a agressividade e alta mortalidade da doença
Um novo estudo brasileiro, publicado na revista científica Molecular and Cellular Endocrinology, desvendou o papel-chave da proteína periostina e de células pancreáticas estreladas no processo que permite ao câncer de pâncreas infiltrar nervos e se disseminar precocemente, aumentando o risco de metástases. A pesquisa demonstra como o tumor reprograma parte do tecido saudável ao redor para adquirir alta capacidade de invasão, em um mecanismo associado à agressividade da doença e à dificuldade de tratamento, apontando possíveis alvos para terapias mais precisas e tratamentos mais personalizados.
O câncer de pâncreas mais comum é do tipo adenocarcinoma (que se origina no tecido glandular, que produz o suco pancreático), correspondendo a 90% dos casos diagnosticados. É considerado um tumor com comportamento agressivo e bastante letal: embora não figure entre os mais frequentes, apresenta mortalidade quase equivalente à incidência. No mundo, são cerca de 510 mil novos casos e praticamente o mesmo número de mortes por ano.
No Brasil, segundo estimativas do Inca (Instituto Nacional de Câncer), são aproximadamente 11 mil casos e 13 mil mortes todos os anos. “É um câncer agressivo e difícil de tratar. Ao redor de 10% dos pacientes apresentam chance de sobrevida a longo prazo, como cinco anos após o diagnóstico”, afirma o oncologista Pedro Luiz Serrano Uson Junior, um dos autores do estudo.
A agressividade desse tumor está ligada, entre outros fatores, à chamada invasão perineural, processo que acontece quando células cancerosas passam a infiltrar e avançar ao longo dos nervos. Isso não apenas pode causar dores intensas, como também facilita a disseminação do tumor para outras regiões. “A invasão perineural é um marco de agressividade do câncer”, diz Uson.
O trabalho foi realizado no CRID (Centro de Pesquisa em Doenças Inflamatórias), um dos Cepids (Centros de Pesquisa, Inovação e Difusão) da Fapesp e teve como primeiro autor o pesquisador Carlos Alberto de Carvalho Fraga. O grupo buscou entender os mecanismos moleculares e celulares que sustentam essa invasão e para isso usou tecnologias que permitem analisar a atividade de milhares de genes em cada célula e mapear sua posição exata no tecido.
“Conseguimos integrar dados de dezenas de amostras com uma resolução extremamente potente”, afirma Helder Nakaya, pesquisador principal do CRID que liderou o estudo. Nakaya também é pesquisador sênior do Einstein Hospital Israelita e professor da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da Universidade de São Paulo.
Ao analisar esse conjunto de informações em 24 amostras de câncer de pâncreas, os pesquisadores observaram que o estroma (tecido que sustenta o tumor) desempenha papel ativo na sua progressão. Entre os achados mais importantes está o comportamento das células pancreáticas estreladas, que expressam altos níveis de uma proteína chamada periostina — molécula capaz de remodelar a matriz extracelular, a estrutura que organiza e mantém o tecido saudável.
O estudo aponta que, para conseguir avançar pelo tecido e alcançar os nervos, as células tumorais dependem de processos de remodelação intensa da matriz extracelular, num processo complexo que envolve enzimas específicas e desorganização do tecido. “A periostina participa dessa remodelação, abrindo caminho para que as células tumorais invadam”, explica Nakaya. O nervo, por sua vez, funciona como uma espécie de “estrada” para essa expansão.
Via CNN Brasil





Comente esta notícia
compartilhar