Internacional

Marrocos-Brasil: a emergência de uma parceria para a segurança alimentar

E se o horizonte da parceria estratégica Marrocos-Brasil fosse construído em torno da segurança alimentar?

A questão não é teórica, muito menos abstrata, mas prenuncia uma realidade que está tomando forma, tanto por meio dos atuais intercâmbios bilaterais quanto das ações futuras e das iniciativas potenciais que abrangem vários elos essenciais da cadeia alimentar: fertilizantes; comércio agrícola; pesquisa e inovação; aquicultura; agregação industrial e logística.

O success-story marroquino-brasileiro tem sua origem no fato de que o Marrocos possui um insumo estratégico para o agronegócio brasileiro: o fosfato, respaldado por uma
expertise industrial de alto nível em sua transformação em fertilizantes.

Entre um ecossistema agroindustrial brasileiro de estatura mundial e uma experiência marroquina consolidada em matéria de nutrição dos solos, uma parceria win-win foi se afirmando progressivamente e está agora pronta para se erguer num outro patamar.

A missão oficial realizada no Marrocos em meados de setembro pelo ministro brasileiro da Agricultura e Pecuária, André de Paula, permitiu consolidar uma dinâmica já em curso no comércio de fertilizantes e abriu caminho para um abastecimento, por parte do Brasil, de fertilizantes marroquinos que seja seguro, sustentável e customizado.

O comércio Marrocos-Brasil nesse setor passa, assim, a ser considerado não apenas sob a ótica dos volumes de fertilizantes comercializados, mas também em torno do uso eficiente dos nutrientes, de formulações adaptadas às culturas, do domínio das características pedológicas brasileiras, dos biofertilizantes e das novas soluções de nutrição vegetal.

Essa evolução é ainda mais importante porque a segurança alimentar não é mais medida hoje em dia apenas pela quantidade de alimentos produzidos, mas depende também da capacidade de garantir os recursos e os insumos de maneira contínua e previsível.

O Nordeste brasileiro e o litoral atlântico marroquino apresentam desafios hídricos semelhantes: disponibilidade limitada de água, irregularidade das precipitações, degradação dos solos e necessidade de melhorar a produtividade agrícola sem aumentar a pressão sobre os recursos naturais.

O Marrocos desenvolveu uma experiência particular em agricultura sob restrição hídrica, assim como o Brasil formou uma comunidade científica e agronômica altamente qualificada e dispõe de uma experiência considerável na valorização de territórios agrícolas.

A cooperação científica constitui, portanto, uma extensão natural da parceria bilateral em matéria de segurança alimentar.

A pesquisa aplicada deverá se concentrar, em particular, na gestão eficiente da água, na recuperação de solos degradados, na agricultura de precisão, nos biofertilizantes, bem como em culturas resilientes ao estresse hídrico e climático.

A presença da ICARDA (Centro Internacional de Pesquisa Agrícola em Áreas Áridas) na agenda do ministro André de Paula ilustra justamente o interesse dedicado a esses desafios.

A cooperação Marrocos-Brasil não tratará em transpor mecanicamente um modelo agrícola de um país para o outro, mas em mutualizar experiências adquiridas em ambientes distintos para responder a desafios que se tornam cada vez mais universais.

Paralelo a isso, o Brasil dispõe hoje de uma cadeia aquícola dinâmica, com a tilápia representando cerca de 70% da piscicultura brasileira e colocando o país entre os quatro maiores produtores mundiais.

Existe um enorme potencial de internacionalização dessa cadeia, como ficou evidenciado durante o Fórum Empresarial Marrocos-Brasil, realizado em 17 de setembro
de 2026, em Casablanca, e dedicado justamente à pesca e à aquicultura.

As discussões abordaram comércio, processamento, certificação, rastreabilidade e conformidade sanitária.

O Marrocos se posiciona como uma plataforma altamente competitiva para abrir aos produtos do mar e da aquicultura brasileiros novos mercados africanos e europeus. A comitiva brasileira destacou, em especial, a possibilidade de combinar a capacidade produtiva do Brasil com a experiência marroquina no setor, suas infraestruturas portuárias e sua posição como importante hub marítimo.

A tilápia pode, assim, constituir um exemplo concreto dessa cadeia de valor: produção no Brasil, processamento e agregação de valor no Marrocos e, posteriormente, acesso aos mercados europeu, africano e do Oriente Médio, por meio das redes comerciais e logísticas de que dispõe o Marrocos.

Uma segurança alimentar sustentável não depende apenas da capacidade de produzir, mas também de assegurar fluxos comerciais seguros e otimizados. Nessa equação, Tanger Med constitui um ativo estratégico bem vantajoso para o agronegócio brasileiro.

A plataforma logística MEDHUB permite operações de armazenamento, condicionamento e transbordo e se posiciona hoje como um hub logístico essencial para os mercados europeu, mediterrâneo e africano.

O exemplo da African Coffee Hub, instalada na MEDHUB para receber, armazenar, controlar, acondicionar e expedir café africano para diferentes mercados internacionais, ilustra essa capacidade de transformar uma infraestrutura portuária numa plataforma de agregação de valor e distribuição de produtos agrícolas.

Tanger Med tem todo o potencial para fazer do Marrocos um hub agroalimentar entre o Brasil, África e a Europa. Isso permitirá aproximar as cadeias produtivas brasileiras de novos mercados, ao mesmo tempo em que desenvolverá no Marrocos atividades de transformação industrial, condicionamento, armazenamento e distribuição.

A logística fará, assim, a conexão entre dois ativos complementares: o Brasil produtor e exportador de produtos agrícolas e aquícolas e o Marrocos que dispõe de uma reconhecida experiência agroindustrial e de uma posição logística aberta aos mercados árabes, europeus e africanos.

Em suma, a evocação desse tripé – nutrição dos solos; pesquisa e inovação; agregação industrial e logística – evidencia claramente o enorme potencial de uma parceria estratégica multifacetada Marrocos-Brasil.

O próximo capítulo da parceria estratégica Marrocos-Brasil certamente será escrito sob signo da interconexão e da integração de setorial: do lado do Brasil, as capacidades
produtivas agrícolas e pesqueiras do Brasil e seus extraordinários avanços em pesquisa e inovação.

De outro, os recursos fosfáticos do Marrocos; sua expertise em fertilizantes e agregação industrial, bem como sua posição logística na encruzilhada entre a África, a Europa e o Mediterrâneo.

Dos fosfatos às proteínas, da pesquisa e inovação às infraestruturas portuárias, passando pela aquicultura, a parceria Marrocos-Brasil fará emergir uma cadeia de valor
agroalimentar integrada, segura e sustentável entre a América do Sul, a África e a Europa, com Brasil e Marrocos na vanguarda dessa nova geoeconomia.

Fórum CNN
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Via CNN Brasil

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