Santa Nhanhá nasce em “artéria” do bairro para proteger e dar voz à periferia
9:20 16/10/2019

[Via Campo Grande News]
Em um estúdio anexo a casa onde mora, o artista e tatuador SanderleySabergue Martinez, de 26 anos, mais conhecido como San, aprimora o talento que o acompanha desde pequeno. Entre releituras urbanas, críticas sociais e cenas do cotidiano, o artista dá voz a quem mora na periferia por meio do grafite. Desta vez, o cruzamento da Rua dos Andes com a Rua do Aquário, via movimentada e considerada uma “artéria” do bairro, ganhou a proteção da Santa Nhanhá.
Mais do que cores, o trecho ganhou visibilidade num misto urbano e religioso. A mulher de pele preta e olhos de luz foi pintada com as mãos juntas, como se estivesse em oração. Os brincos em formato de argola levam o nome: Santa Nhanhá.
Para quem vem da Avenida das Bandeiras e entra na Rua do Aquário, o grafite está ao lado direito. Mas nem é preciso muita explicação, afinal de contas é possível ver a obra de longe.
Um antes do cruzamento.
Ponto depois de receber as cores do grafite. (Foto: Marina Pacheco)
O ponto foi estratégico e escolhido justamente pela visibilidade, diz San. (Foto: Marcos Maluf)Junto ao grafite, a frase também é curiosa e remete a um cuidado familiar: Vai pela sombra filho… é quente. Pode deixar mãe que vou na sombra do onipotente.
O ponto foi estratégico e escolhido justamente pela visibilidade. Feito há dois meses, a arte durou três dias porque foi feita intercalada com outro serviço, mas normalmente duraria um dia.
“Essa descida é como uma artéria da Vila porque é corredor para outros bairros. É ali o entra e sai de carros e maior fluxo de dependentes químicos. A Santa Nhanhá veio para proteger os irmãozinhos que estão nas ruas”, explica.
No Estúdio SCW, San tem a companhia constante de “Mega”. (Foto: Marcos Maluf)Filho de mãe paraguaia, Martinez já morou em vários lugares, mas há sete está na Vila Nhanhá. Pai de uma menina de 6 anos, o artista garante que a arte salvou sua vida. “A arte deu outro sentido a minha vida. Eu não estudei para isso, ela nasceu comigo e me fez viver melhor. Não sei se daria certo fazendo outra coisa”, pontua.
É da injustiça enraizada e evidente, principalmente, nos subúrbios que Martinez molda sua inspiração e a repassa às paredes. Os primeiros desenhos de Martinez já ganharam forma na parede e iniciaram em 2010.
No Estúdio SCW, San tem a companhia constante de “Mega”, uma cadelinha vem ciumenta e protetora. Nas paredes do escritório particular há muito mais reflexões.
Momento de prática e estudo. (Foto: Marcos Maluf)
Black Block criado por San. (Foto: Marcos Maluf)
Mulher que representa a vila em seus traços. (Foto: Arquivo Pessoal)
Grafite feito em homenagem à filha de 6 anos. (Foto: Arquivo Pessoal)
Uma delas mostra o “Black Bloc” revestido com a bandeira de Campo Grande. O desenho se trata de um garoto periférico com a boca tapada, ou seja, o típico morador que não ganha voz. “Eu não falo deles, pela arte eu tento representa-los e eles se reconhecem no desenho também”, explica.
Além da obra, uma mulher com traços latinos, brincos que também levam o nome da Vila faz parte do cenário de seu estúdio. Entre as criações, um grafite que representa a filha de 6 anos. O desenho está localizado numa escola do Bairro Parati e foi feito durante um projeto de grafite nas escolas.
San faz qualquer desenho, mas, é claro, que prefere a liberdade de criar. “Quem me conhece me deixa criar, mas quem não conhece prefere a arte ensinada a eles, então, só reproduzo o que eles pedem”, pontua.
A arte deu outro sentido a minha vida. Eu não estudei para isso, ela nasceu comigo e me fez viver melhor, diz San.




Comente esta notícia
compartilhar